6 de julho de 2017

Brasil tem dois dos 14 gargalos que ameaçam abastecimento global de alimentos

Há apenas 14 gargalos no comércio mundial de alimentos, mas eles são fundamentais para a segurança alimentar de toda a população do planeta. São portos e pontos de comercialização fundamentais para a compra, a venda e a distribuição de alimentos, de acordo com um recente relatório da Chatham House, centro de estudos com base no Reino Unido.

Três deles estão na América Latina: o canal do Panamá, as rodovias do interior brasileiro e os portos do sul e sudeste do Brasil. Outros desses pontos de gargalo incluem o estreito de Gibraltar, as ferrovias do interior dos Estados Unidos, o estreito de Hormuz (no Oriente Médio) e o estreito de Dover, no norte da Europa, por exemplo.

Mas as mudanças climáticas, a estrutura deficiente e as potenciais crises poderiam colocar em risco essas rotas de comércio.

Há pontos de gargalo marítimos (estreitos e canais), costeiros (portos) e terrestres (estradas, ferrovias e hidrovias), e o comércio global de alimentos depende fortemente deles, afirma o estudo.

Interrupções em um ou mais desses pontos poderiam ter enormes impactos. Os preços globais dos alimentos, o abastecimento de mercados locais, a sobrevivência de comerciantes e agricultores e a provisão de comida para as comunidades mais vulneráveis dependem do movimento contínuo de bens por meio de fronteiras e oceanos.

Sobre o Brasil, que é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, o relatório lembra que fortes chuvas tornam intransitáveis as rodovias mal conservadas em diversas ocasiões, impedindo o transporte de comida das fazendas no interior do país aos portos litorâneos.

Um cenário extremo  em que portos na costa americana fossem fechados por conta de um furacão ao mesmo tempo em que estradas-chave do Brasil fossem inundadas pelas chuvas  poderia reduzir pela metade o suprimento global de soja, prossegue o estudo.

Os pesquisadores citam também os impactos políticos que crises relacionadas à distribuição de alimentos podem causar.

Interrupções (de fornecimento alimentar) podem estimular a instabilidade política. Governos dependem do funcionamento desses pontos de gargalo para garantir o suprimento eficiente de comida para suas populações. Uma colheita fraca de trigo na região do mar Negro, por exemplo, contribuiu para a ocorrência de protestos no norte da África entre 2010 e 2011; esses protestos evoluíram para a Primavera Árabe.

PROTEÇÃO

A Chatham House também advertiu que é preciso agir para proteger as principais rotas de transporte de alimentos, tais como o canal do Panamá, o canal de Suez e do estreito da Turquia.

Quase 25% dos alimentos do mundo são comercializados nos mercados internacionais. Isso, diz o relatório, faz com que a oferta de produtos e seus preços sejam vulneráveis a crises imprevistas ou mudanças climáticas.

A infraestrutura nesses pontos é, em muitos casos, antiga e enfrentaria dificuldades para fazer frente a desastres naturais que devem se multiplicar à medida que o planeta se aquece, diz o relatório. Seus autores também aconselham os governos a investir em infraestrutura resistente ao tempo e a diversificar a produção e o armazenamento de alimentos.

INTERDEPENDÊNCIA

O relatório dá exemplos de quão dependente é o mundo dessas negociações internacionais:

* Três quartos das importações de milho e trigo do Japão passam pelo canal do Panamá;
* Pouco mais de um terço das importações de cereais para o Oriente Médio e o Norte da África passam por estreitos turcos, sem rota marítima alternativa disponível;
* Mais de 25% de exportação de soja circula pelo estreito de Malaca, entre a Malásia e a Indonésia;
* Estradas do Brasil, maior exportador de soja do mundo, estão sob risco de inundações e deslizamentos de terra em caso de fortes chuvas;
* Os portos dos EUA na costa do golfo da Califórnia enfrentam tempestades impulsionadas pelo aumento das marés;
* Os países do Conselho de Cooperação do Golfo dependem de grãos da região do mar Negro que são transportados por pontos comercialização de ferrovias e portos russos e ucranianos do estreito da Turquia e do canal de Suez.

Os riscos crescem à medida que fazemos mais interações comerciais entre os países e aumenta a presença de alterações climáticas, disse Laura Wellesley, uma das autoras do estudo. Existem riscos tanto para a segurança alimentar dos países importadores como para as economias exportadoras de alimentos.

BBC Brasil

 

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